terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A velha

Uma manhã, uma velha mulher aproximou-se de mim. Numa mão, segurava habilmente um copo descartável com suco e um sanduíche, que um vendedor ambulante de lanche a havia dado, depois de tanto ela insistir, e na outra, a direita, um pano cor-de-laranja. Ela o agitava na minha direção.

- O que é isso!? – perguntei firme e sério, quase a repreendendo.
- Minha bandeira do Sport.
- Hum...
- Me dá dinheiro?
- Não tenho – cara de lamento.
- Tem, você trabalha.
- Se eu tivesse, estaria com um sanduíche e um copo de suco. – Ela retrucou:
- Isso eu ganhei.
- E eu, que nem tenho essa sorte!

Pensou um pouco e agitou mais duas ou três vezes seu pano alaranjado. E repetiu:

- Minha bandeira do Sport.
- A bandeira do Sport é vermelha e preta – ela olhou para o pano, sem necessariamente observá-lo, como se considerasse o que eu dissera.
– É a bandeira do sonhador.

Até então, estava impassível, respondendo curta e secamente, evitando que aquele diálogo se prolongasse, e com certo receio do seu final. Mas, nessa hora, meu rosto iluminou-se, e lembrei-me de uma intuição antiga, a de que havia algo de muito verdadeiro na loucura, místico até. Tentei explorá-la.
- O que é o sonhador? – ela olhou para o chão, pensou alguns segundos, fitou-me, fez-me um "tsc!" desdenhoso, virou-se e se foi, mordendo seu café da manhã.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Meu nome é tiago calado
Rapaz de grande imaginação
Pequeno era levado da breca
Ria à larga, de montão
Mas fui virando homem
Seguindo nenhuma direção
Sofrendo as intempéries
De um impetuoso coração

Fui vendo orkut's na tela
Colorida de meu computador
Vi o de Kamila Roberta - que bela!
E esse poema encantador...
Conheço seu tio, sua prima
Quem sabe até o seu avô!?
Por isso me apresento: "tudo bem?"
Não precisa me chamar de doutor.

=)

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Vira e revira dentro de mim.

O SEU SANTO NOME
Carlos Drummond de Andrade

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão ( e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

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Essa prudência já tentei, mas repito um trecho do próprio poema para contradizê-lo:

O Amor é um "sem razão acima(e depois) de toda razão".

domingo, 20 de janeiro de 2008

De novo...

Como é bom esse amor de que falo abaixo! Entregar-se e sentir que o outro também se entrega, inteiramente. Mais completude não posso imaginar, e isso afeta positivamente todas as outras esferas da vida. O estudo rende mais: a concentração aumenta; o ciclo de amizades se expande: ficamos mais alegres, mais atraentes; o trabalho torna-se dignificante: encontramos sentido nele; etc.

Mas aí vem a dor.

A dor de não sentirmo-nos únicos. De sentirmos que o outro distribui gratuitamente seu amor e se entrega a outrem. Como dói essa penetrante percepção, e explode e arrasa nosso coração vaidoso e dele jorra bíle que sobe a garganta, deixando amarga a boca.

A dor de sentir que poderíamos ter evitado(ou não), mas não o fizemos. De pensar: "Se sempre desconfiei, por que me deixei enganar!?". De sentir que não possuímos controle algum sobre nós mesmos, que somos os mesmos tolos dantes.

O mais doloroso, porém, é imaginar como podia ter sido bom, se fosse de outro modo. Criar cenas felizes e simples, em que tudo está da melhor forma possível; relembrar momentos de cotidiana alegria, de bobas trocas de afeto, que nunca existiram. Doloroso é amar ainda quem te traiu. É se odiar por não ser perfeito, pois desse modo ninguém nunca iria querer te deixar. É desejar ardentemente o corpo quente e amoroso de outrora; é pensar que sem esse corpo e sem quem nele habita nada pode ser bom o bastante.

Ah, perfídia! Tua lâmina tem o veneno da covardia!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Amor...

O que é o amor sem toque, sem cheiro de suor, sem desejo louco e depravado? O que será ele sem o molhado das línguas, sem as mãos trêmulas que percorrem nervosamente os corpos, as partes mais íntimas dos corpos? O amor sem o desespero da entrega incontinente, sem pudor? É um amor incompleto, insuficiente. Insosso, insípido, pueril! O amor pode ser um sentimento elevado, mas a única forma de ascender a ele é por via da paixão, da mais genuína e visceral das paixões. A mundana prostituta Paixão. E nesse contexto, quem segura o arco e atira flechas(envenenadas de volúpia) é a generosa Loucura, que tanta felicidade e liberdade gratuitamente distribui.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

O homem do "às vezes"

Às vezes sou a fúria irracional; e embora o perceba e reflita enquanto sou tal, decido continuar sendo, pois a força que isso dá me agrada. Às vezes sou a sensibilidade sobrenatural, provando das dores e alegrias alheias como se minhas fossem; e me deleito vivendo outras vidas, ficando quase nunca entediado. Às vezes sou a generosidade impessoal; e me dou sem economia, sem ser algo ou alguém, não existo, só o outro. Às vezes sou o amor incondicional; fico feliz com as crianças, com os bichos, com as tolices humanas, com tudo; páro de desejar por mim e respondo a tudo com sorrisos. Sou o homem do "às vezes".