domingo, 20 de janeiro de 2008

De novo...

Como é bom esse amor de que falo abaixo! Entregar-se e sentir que o outro também se entrega, inteiramente. Mais completude não posso imaginar, e isso afeta positivamente todas as outras esferas da vida. O estudo rende mais: a concentração aumenta; o ciclo de amizades se expande: ficamos mais alegres, mais atraentes; o trabalho torna-se dignificante: encontramos sentido nele; etc.

Mas aí vem a dor.

A dor de não sentirmo-nos únicos. De sentirmos que o outro distribui gratuitamente seu amor e se entrega a outrem. Como dói essa penetrante percepção, e explode e arrasa nosso coração vaidoso e dele jorra bíle que sobe a garganta, deixando amarga a boca.

A dor de sentir que poderíamos ter evitado(ou não), mas não o fizemos. De pensar: "Se sempre desconfiei, por que me deixei enganar!?". De sentir que não possuímos controle algum sobre nós mesmos, que somos os mesmos tolos dantes.

O mais doloroso, porém, é imaginar como podia ter sido bom, se fosse de outro modo. Criar cenas felizes e simples, em que tudo está da melhor forma possível; relembrar momentos de cotidiana alegria, de bobas trocas de afeto, que nunca existiram. Doloroso é amar ainda quem te traiu. É se odiar por não ser perfeito, pois desse modo ninguém nunca iria querer te deixar. É desejar ardentemente o corpo quente e amoroso de outrora; é pensar que sem esse corpo e sem quem nele habita nada pode ser bom o bastante.

Ah, perfídia! Tua lâmina tem o veneno da covardia!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Amor...

O que é o amor sem toque, sem cheiro de suor, sem desejo louco e depravado? O que será ele sem o molhado das línguas, sem as mãos trêmulas que percorrem nervosamente os corpos, as partes mais íntimas dos corpos? O amor sem o desespero da entrega incontinente, sem pudor? É um amor incompleto, insuficiente. Insosso, insípido, pueril! O amor pode ser um sentimento elevado, mas a única forma de ascender a ele é por via da paixão, da mais genuína e visceral das paixões. A mundana prostituta Paixão. E nesse contexto, quem segura o arco e atira flechas(envenenadas de volúpia) é a generosa Loucura, que tanta felicidade e liberdade gratuitamente distribui.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

O homem do "às vezes"

Às vezes sou a fúria irracional; e embora o perceba e reflita enquanto sou tal, decido continuar sendo, pois a força que isso dá me agrada. Às vezes sou a sensibilidade sobrenatural, provando das dores e alegrias alheias como se minhas fossem; e me deleito vivendo outras vidas, ficando quase nunca entediado. Às vezes sou a generosidade impessoal; e me dou sem economia, sem ser algo ou alguém, não existo, só o outro. Às vezes sou o amor incondicional; fico feliz com as crianças, com os bichos, com as tolices humanas, com tudo; páro de desejar por mim e respondo a tudo com sorrisos. Sou o homem do "às vezes".