terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A velha

Uma manhã, uma velha mulher aproximou-se de mim. Numa mão, segurava habilmente um copo descartável com suco e um sanduíche, que um vendedor ambulante de lanche a havia dado, depois de tanto ela insistir, e na outra, a direita, um pano cor-de-laranja. Ela o agitava na minha direção.

- O que é isso!? – perguntei firme e sério, quase a repreendendo.
- Minha bandeira do Sport.
- Hum...
- Me dá dinheiro?
- Não tenho – cara de lamento.
- Tem, você trabalha.
- Se eu tivesse, estaria com um sanduíche e um copo de suco. – Ela retrucou:
- Isso eu ganhei.
- E eu, que nem tenho essa sorte!

Pensou um pouco e agitou mais duas ou três vezes seu pano alaranjado. E repetiu:

- Minha bandeira do Sport.
- A bandeira do Sport é vermelha e preta – ela olhou para o pano, sem necessariamente observá-lo, como se considerasse o que eu dissera.
– É a bandeira do sonhador.

Até então, estava impassível, respondendo curta e secamente, evitando que aquele diálogo se prolongasse, e com certo receio do seu final. Mas, nessa hora, meu rosto iluminou-se, e lembrei-me de uma intuição antiga, a de que havia algo de muito verdadeiro na loucura, místico até. Tentei explorá-la.
- O que é o sonhador? – ela olhou para o chão, pensou alguns segundos, fitou-me, fez-me um "tsc!" desdenhoso, virou-se e se foi, mordendo seu café da manhã.