que em pasto azul boi que late comesse,
ou que gato preto fosse agouro que se acolhesse;
que um rato brabo pelo meio da sala corresse
que homem chorasse, árvore andasse, poste mijasse e luz nunca acendesse.
que vazio nosso um dia se preenchesse.
que bicho-da-seda papel higiênico comesse
falasse bandido que tudo não passava de um blefe;
fizesse menino com que pai e mãe obedecesse
fugisse do peito bezerro que recém-nascesse.
amor fosse possível sem que houvesse interesse.
tudo enfim diverso contrário sucedesse.
e fosse eu feliz e viver eu merecesse.
domingo, 19 de junho de 2011
sábado, 18 de junho de 2011
te miro direto, agudo, e o que vejo? tua alma se debate, rejeita o abrigo límbico. anseia por desgarrar-se, por rasgar a clorofila dos teus olhos, voar! dane-se a salvação, dane-se a danação!
os teus olhos são um grito contido que me dão vontade de gritar também. que te amo - e odeio - indiscriminadamente, e que adoro o teu tormento(prazer perverso dissolvido em meu remorso).
eu te pego, te aperto os braços e te bato, lacero as tuas roupas. teu corpo explode em mil orgasmos.
ah, é doentio! mas teu beijo gosto de sangue me embriaga. tua face rubra, escandalizada, me excita! ah! não me pedes mais!
eu te estupro. é isso. mesmo com o teu consentimento, mesmo com os teus rogos ensandecidos. eu te estupro.
e é tão bom! como arde! e é volúpia meu desejo. é volúpia, e o que sou? eu te odeio.
eu te pego, te aperto os braços e te bato, lacero as tuas roupas. teu corpo explode em mil orgasmos.
ah, é doentio! mas teu beijo gosto de sangue me embriaga. tua face rubra, escandalizada, me excita! ah! não me pedes mais!
eu te estupro. é isso. mesmo com o teu consentimento, mesmo com os teus rogos ensandecidos. eu te estupro.
e é tão bom! como arde! e é volúpia meu desejo. é volúpia, e o que sou? eu te odeio.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
uma menininha - é o que era. é o que estava cansada de ser. não podia sair sozinha, comer os doces que queria, dormir tardão da noite, ver filme de horror. "que saco!" - dizia revoltada. não percebiam que já completara oito anos!?
decidiu estilhaçar esta imagem. bolou plano.
assim que entrou no carro, apanhada na escola por seu pai, comunicou: "tenho uma coisa pra dizer hoje, no jantar". "o quê?" - perguntou o outro, sorrindo do que considerava mais uma de suas fofuras. (como ela odiava isso!) "pai, já disse: no jantar!". e embirrou.
a tarde toda permaneceu no quarto, deixando a casa na maior expectativa. às seis horas desceu muito séria, foi até a cozinha e espiou: o jantar ainda não estava pronto.
alguns minutos e seu pai deslizou a porta de vidro que dava pra varanda, e avisou-a da mesa posta. fingiu ignorá-lo, apenas mexendo-se depois que ele saíra.
na mesa uma preocupação estava de pé, sendo estudada. "e se fosse mais que capricho?" decidiram não tocar no assunto, muito menos em tom de troça. somente deixá-la.
quando por fim apareceu, os outros à metade de acabar, sentou-se sem olhar ninguém. segurou os talheres, mexeu um pouco na comida, e soltou garfo e faca de repente, fazendo-os tilintar alto.
- mãe, pai... estou grávida.
uns segundos se perderam no silêncio, palavras a serem digeridas. e então: risos, muitos risos. seus pais riram de se acabar. de chorar, de afastar os pratos, de pôr a mão na barriga, de não poder dizer patavina quando ela se retirou furiosa.
vinte minutos depois e a menininha ainda ouvia os risos. "Insensíveis!" - decretou. e abraçou Pimpo, seu ursinho de pelúcia que era na verdade um cachorro.
decidiu estilhaçar esta imagem. bolou plano.
assim que entrou no carro, apanhada na escola por seu pai, comunicou: "tenho uma coisa pra dizer hoje, no jantar". "o quê?" - perguntou o outro, sorrindo do que considerava mais uma de suas fofuras. (como ela odiava isso!) "pai, já disse: no jantar!". e embirrou.
a tarde toda permaneceu no quarto, deixando a casa na maior expectativa. às seis horas desceu muito séria, foi até a cozinha e espiou: o jantar ainda não estava pronto.
alguns minutos e seu pai deslizou a porta de vidro que dava pra varanda, e avisou-a da mesa posta. fingiu ignorá-lo, apenas mexendo-se depois que ele saíra.
na mesa uma preocupação estava de pé, sendo estudada. "e se fosse mais que capricho?" decidiram não tocar no assunto, muito menos em tom de troça. somente deixá-la.
quando por fim apareceu, os outros à metade de acabar, sentou-se sem olhar ninguém. segurou os talheres, mexeu um pouco na comida, e soltou garfo e faca de repente, fazendo-os tilintar alto.
- mãe, pai... estou grávida.
uns segundos se perderam no silêncio, palavras a serem digeridas. e então: risos, muitos risos. seus pais riram de se acabar. de chorar, de afastar os pratos, de pôr a mão na barriga, de não poder dizer patavina quando ela se retirou furiosa.
vinte minutos depois e a menininha ainda ouvia os risos. "Insensíveis!" - decretou. e abraçou Pimpo, seu ursinho de pelúcia que era na verdade um cachorro.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
profissão? tomador de cafezinho. e o dia todo passava, soprando e bebericando, entre conversas incontáveis na barraca do Dindo; mais o próprio, o Eustáquio, o Eusébio e o Queiroga. a venda dava pra avenida movimentada, sempre acontecendo caso de interromperem subitamente a falação pra espiar alguma que passava. "olha que pitchuca!", "oxe, uma depravação!", "levava pra casa e dava banho", "chamava de minha querida".
um dia falavam sobre pescaria.
- sabe o córrego lá de Santa Terezinha? dia desses fui e era peixe que Deus dava. tive que afastar uns com a mão pra botar anzol.
noutro, o assunto foi política:
- fui votar em Zico Pitanga, ó que é que dá: perdi meu voto - danado não se elegeu. devia era ter votado em fulaninho esse que ganhou mesmo. tava na cara!
sociedade.
- rapaz, foi mendigo lá em casa, cabra velho já, aleijado; coisa triste. a pobreza no olhar. tinha uns pão lá dormido, dei, que a gente tem é que ajudar mesmo. mas fico pensando, isso é castigo.
futebol reinava.
- pense num jogador rim! é de dar dó. que procurasse outra coisa que fazer, jogar dominó, porque bola né com ele não. vê mais um "cafezin" aê, Dindo!
sexta-feira essa última, chegou abatido - todos perceberam. "qué que há, mano velho? que que foi?" quis fingir que era nada, que era sono, que num tinha comido direito, que neto tirou nota baixa, que tudo. ficaram ofendidos: não confiava nos amigos? num estavam lá pra isso mesmo? e se fosse com eles, esconderiam? não senhor! porque amigo que é amigo conta. e amigo que é amigo escuta e ajuda se puder.
- é que tô precisado de uns dinheiros aí...
Eustáquio logo disse que a mulher o esperava. Queiroga resolveu ir com ele. Eusébio, dentista. no Dindo bateu caganeira, precisou fechar o comércio.
até amanhã, camarada! até amanhã!
um dia falavam sobre pescaria.
- sabe o córrego lá de Santa Terezinha? dia desses fui e era peixe que Deus dava. tive que afastar uns com a mão pra botar anzol.
noutro, o assunto foi política:
- fui votar em Zico Pitanga, ó que é que dá: perdi meu voto - danado não se elegeu. devia era ter votado em fulaninho esse que ganhou mesmo. tava na cara!
sociedade.
- rapaz, foi mendigo lá em casa, cabra velho já, aleijado; coisa triste. a pobreza no olhar. tinha uns pão lá dormido, dei, que a gente tem é que ajudar mesmo. mas fico pensando, isso é castigo.
futebol reinava.
- pense num jogador rim! é de dar dó. que procurasse outra coisa que fazer, jogar dominó, porque bola né com ele não. vê mais um "cafezin" aê, Dindo!
sexta-feira essa última, chegou abatido - todos perceberam. "qué que há, mano velho? que que foi?" quis fingir que era nada, que era sono, que num tinha comido direito, que neto tirou nota baixa, que tudo. ficaram ofendidos: não confiava nos amigos? num estavam lá pra isso mesmo? e se fosse com eles, esconderiam? não senhor! porque amigo que é amigo conta. e amigo que é amigo escuta e ajuda se puder.
- é que tô precisado de uns dinheiros aí...
Eustáquio logo disse que a mulher o esperava. Queiroga resolveu ir com ele. Eusébio, dentista. no Dindo bateu caganeira, precisou fechar o comércio.
até amanhã, camarada! até amanhã!
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