Possuía olhos suplicantes, aquela cadelinha. Recebera o nome de Cinza, embora fosse bege - faceirice dos meninos da rua. Andava para todo lado com uma atitude mendincante, implorando tudo, comida, piedade, atenção. Tinha medo quando, em certas épocas do ano, os cachorros a cervacam por dias inteiros, tentando violá-la. Implorava que a deixassem, mas não deixavam, então cedia. Logo nasceriam filhotes destinados ao lixo.
Um dia saí de casa e a vi, deitada na rua, o meio do seu corpo rente ao chão, esmagado por um pneu, provavelmente. Suas patas, de trás e da frente, não haviam sido atingidas e se debatiam freneticamente. Ela gemia baixinho, e tossia - sangue. Tive muita pena, mas o que fazer? Fiquei ali, velando, esperando que a morte se manifestasse e a livrasse daquela agonia. Outros carros vinham e, devagar, desviavam da moribunda. Os motoristas olhavam curiosos e faziam expressões de repulsa ante aquela visão. Um deles estacionou mais a frente e sentou-se silencioso do meu lado, na calçada, companheiro de vigília. Mas ela não morria.
Passaram-se quase duas horas, e ela do mesmo jeito, tossindo, balançando as patinhas, tentando levantar. Tossia após qualquer esforço, gemia um grunhido sufocado, dolorido, e mais sangue pelo focinho. Decidimos, eu e o motorista que parara, dar cabo àquele sofrimento. Deliberamos sobre a melhor maneira - ela não precisava sofrer mais. Decidimos por um golpe de porrete, na falta de um revólver. Ele disse não ter coragem, então fui. Dei a primeira, os olhos dela esbugalharam-se, um saiu fora da órbita ocular, ficando pendurado por nervos e vasos. Tive horror demais, estava frustrado, pois ela não morrera, e agora gania. Fui de novo, com mais força, fez um barulho terrível. Parte do crânio afundou, uma poça de sangue galgava espaço devagar, centímetro a centímetro por debaixo de sua cabeça. Calara-se. Morta? Esperava que sim, começava a me sentir culpado, cheguei até a me repreender arrependido, mas foi o melhor, foi sim.
Disse ao homem que precisava entrar. Larguei o porrete e rumei para dentro de casa, de onde não saí por dias. Havia matado Cinza.


