quarta-feira, 13 de julho de 2011

a cadelinha da rua

Possuía olhos suplicantes, aquela cadelinha. Recebera o nome de Cinza, embora fosse bege - faceirice dos meninos da rua. Andava para todo lado com uma atitude mendincante, implorando tudo, comida, piedade, atenção. Tinha medo quando, em certas épocas do ano, os cachorros a cervacam por dias inteiros, tentando violá-la. Implorava que a deixassem, mas não deixavam, então cedia. Logo nasceriam filhotes destinados ao lixo. 

Um dia saí de casa e a vi, deitada na rua, o meio do seu corpo rente ao chão, esmagado por um pneu, provavelmente. Suas patas, de trás e da frente, não haviam sido atingidas e se debatiam freneticamente. Ela gemia baixinho, e tossia - sangue. Tive muita pena, mas o que fazer? Fiquei ali, velando, esperando que a morte se manifestasse e a livrasse daquela agonia. Outros carros vinham e, devagar, desviavam da moribunda. Os motoristas olhavam curiosos e faziam expressões de repulsa ante aquela visão. Um deles estacionou mais a frente e sentou-se silencioso do meu lado, na calçada, companheiro de vigília. Mas ela não morria.

Passaram-se quase duas horas, e ela do mesmo jeito, tossindo, balançando as patinhas, tentando levantar. Tossia após qualquer esforço, gemia um grunhido sufocado, dolorido, e mais sangue pelo focinho. Decidimos, eu e o motorista que parara, dar cabo àquele sofrimento. Deliberamos sobre a melhor maneira - ela não precisava sofrer mais. Decidimos por um golpe de porrete, na falta de um revólver. Ele disse não ter coragem, então fui. Dei a primeira, os olhos dela esbugalharam-se, um saiu fora da órbita ocular, ficando pendurado por nervos e vasos. Tive horror demais, estava frustrado, pois ela não morrera, e agora gania. Fui de novo, com mais força, fez um barulho terrível. Parte do crânio afundou, uma poça de sangue galgava espaço devagar, centímetro a centímetro por debaixo de sua cabeça. Calara-se. Morta? Esperava que sim, começava a me sentir culpado, cheguei até a me repreender arrependido, mas foi o melhor, foi sim.

Disse ao homem que precisava entrar. Larguei o porrete e rumei para dentro de casa, de onde não saí por dias. Havia matado Cinza.

pustulenta, pútrida, pernóstica.

Vadia, vazia, vulgar; vida vã, vida volátil, vagamente verdadeira. Vejo-te, vejo-me, vislumbro vilania, veneta. Vida vazia... versos vorazes, vazios... vigorosas vontades, vazias... Vida vazia... Insistes em ser minha inimiga, mas te amo, e neste venerável amor, avesso, doentio, vergonhoso, estimo-te sem estima, acredito em ti sem a mim dar crédito. Dás-me somente esperança, mas esperança o que é?, apenas tortura continuada. Vida vazia, pudera eu matar-me, matar-te, mas te amo. Quando chegará minha vez?

Uma briga das brabas

Disputaram um mano-a-mano a Inocência e a Concupiscência. A primeira, em sua ignorância do mal, não adivinhava os estragemas da segunda, o que lhe rendeu severas bordoadas. Esta última sentia prazer em cada penetração dos ossos de seu punho na carne tenra da ingênua adversária, que a princípio evitou a briga, não encontrando motivos para tal, mas que, aos se ver agredida, reagiu, como a incitava seus puros instintos. Venceu, posto que a Concupscência passou a voluptuosamente desfrutar das pancadas que recebia, e se batia de volta, tinha como fim estimular a outra a castigar-lhe mais. 

Passaram então a discutir, a Inocência a cobrar explicações daquele absurdo à Concupiscência, que justificava-se dizendo estar farta de ser considerada pelos homens como um "escorrego", um deslize de sua moralidade, enquanto que a outra era louvada e às vezes perseguida, sendo considerada muitas vezes condição para a Felicidade. Disse que os homens sempre voltavam a ela, pois ela era inerente à sua condição, enquanto que a outra se vai com o amadurecimento, uma demodé, obsoleta, e estúpida! 

A Inocência viu-lhe o desgosto infeliz e apiedou-se, disse que era verdade, que não passava de um atributo de crianças, e que muitas vezes levava volta dos espertos, como ela, a Concupscência, que embora fugazes, proporcionava muito mais prazeres aos homens.

Nesse interím, a Concupiscência aproveitou uma abaixada de cabeça da Inocência e deu-lhe um golpe derradeiro, abandonando-a ao relento, no chão.

terça-feira, 5 de julho de 2011

     Senhor Camilo,




         Sinto muito existirem pessoas semelhantes ao senhor. Envergonho-me até de ser homem, porque vejo homens cometerem as mais vis baixezas.


         Espero que repense seus atos.




                                             Sem mais.










     Atordoado. Foi assim que Camilo terminou de ler. Mas logo saiu do transe e a astúcia costumeira fez-se notar, apresentando ordenadamente ao seu consciente todos os possíveis rastros deixados de que sua memória dispunha, e seus respectivos modos mais efetivos de extermínio.


          Eram pouquíssimos. "Como alguém poderia..." De repente lembrou-se do Osvaldo, "aquele filho da mãe hipócrita!" Flagraram-se no escritório após o expediente, uma semana atrás. "Bem que ele ficou bastante estranho. Cretino, que comer tudo sozinho."


         Armou plano.


        Dia seguinte passou na mesa dele e convidou-o para almoçar. "Insisto" - disse incisivamente, após menção de relutância do outro, que às vésperas do meio-dia já tinha seus próprios planos.


        Camilo tomou cuidado para não serem vistos juntos, esperando do lado de fora da empresa, afastado da porta. Quando o colega de trabalho chegou, encaminharam-se para o centro, onde havia variedade de restaurantes.


 - Então, qual é a ocasião? - perguntou Osvaldo.


 - Ora, "amigos" não podem passar um tempo juntos? - os lábios crispados, dos olhos uma faísca maligna.


        Caminharam uns dez minutos por ruas não muito movimentadas, contíguas à avenida, pois Camilo supostamente precisava pegar o relógio no conserto. Em certa altura, a cerca de trinta metros de uma Kombi branca com vidros fumê, estacionada à frente deles, do lado em que iam, Camilo iniciou conversa:


 - Contou pra mais alguém?


 - Ham?


 - Não seja sonso, me diga!


 - Olha aqui, você me chama...


        Estavam ao lado da Kombi, e repentinamente a porta lateral desta se abriu e quatro braços musculosos puxaram Osvaldo para dentro. A tarde andava silenciosa por ali, continuando do mesmo jeito depois que o veículo da Volkswagen dobrou a esquina.


        Camilo teve um almoço recompensador. Osvaldo nunca mias almoçará.

        "Cinco horas da manhã já! Cadê esse sol?!" - é, o Sol estava atrasado. Passara a noite acordado e queria, antes de finalmente dormir, se exercitar na praça perto de casa. Mas não alvorecia.


        Decidiu ir assim mesmo. Para sua surpresa, encontrou um monte de gente em plena atividade. Dirigiu-se às barras de ferro destinadas ao alongamento e ficou lá se esticando enquanto observava. Um velho de feições asiáticas se aquecia estranhamente, percorrendo todo o espaço vago encurvado, segurando os calcanhares; outro fazia uns movimentos inúteis, cômicos, estendendo e recolhendo as mãos na horizontal, das extremidades do que podia aos ombros, revezando com o mesmo movimento, só que para cima.


        Uma senhora bastante idosa se pendurou na barra; ele disse baixinho: "não acredito!", mas ela apenas dobrou as pernas e as esticou umas duas vezes.


 - Também me assustei da primeira vez que a vi se pendurar lá.


        Virou-se e deu com um sorriso muito branco, franco, contrastando com a pele morena. Era um mulherão, bonita e atlética. Sua musculatura potente e porte magnífico não obscureciam uma feminilidade particularmente graciosa. Comparou-a a uma égua de raça.


        Dito isso, partiu em disparada para o seu cooper. Tentou acompanhá-la, mas o seu ritmo era muito forte para um corredor ocasional como ele, e depois da primeira volta ficou para trás. Conseguiu somente saber-lhe o nome e dizer que era a primeira vez dele àquele horário e que havia gostado muito.


        Insatisfeito com o seu desempenho físico e retórico, continuou a correr mais devagar, às vezes caminhando para tomar fôlego e voltando a correr em seguida. Pensava também num jeito mais atraente de abordar Gabi, que era o nome do puro-sangue, e se determinava cada vez mais, sempre que ela passava por ele.


        Por fim terminou as voltas que tinha pré-estabelecido como meta e foi fazer uns abdominais e flexões. Vinte minutos depois Gabi estacionava por lá, para o alongamento final. Aproximou-se decidido a dizer qualquer coisa, tendo abandonado as inconclusivas deliberações sobre que palavras produziriam maior efeito, quando ela o interrompeu:


 - Olha, eu só que ser simpática, sou casada, ó... - e mostrou a aliança na mão. Um pouco embaraçado, pensou rápido em como sair dessa, e disse:


 - Nossa!, só queria saber as horas; que arrogância! - e foi embora. 



 - Sabe aquele tipo de coisa da qual a gente não sabe que precisa até ter encontrado? Você é assim, sem ser uma coisa, claro... Eu sei, eu sei... embora algumas vezes eu tenha te tratado como tal...


 - Prossiga.


 - E eu te amo tanto, e é tão grande, sabe... que eu nem sei definir ou explicar... 


 - Aham.


 - E se você voltasse...


 - Você dormiu com ela?


 - Claro que não! Foram só uns beijinhos, você me conhece.


 - Conheço: um atrevido.


 - Isso foi no começo. Com o passar do tempo e o namoro da gente, sabe, eu fui me aquietando.


 - Mas vocês passaram a noite juntos que eu sei.


 - Só que não rolou nada. Pra ser sincero, embora isso manche a minha masculinidade, não senti tesão. Logo no começo me deu um peso danado na consciência, aí paramos. Eu não podia mais.


 - Eu tô me lixando pra tua masculinidade.


 - Sabe de uma coisa, Roberta, você já foi mais civilizada.


 - Ah, é? 


 - É! E sensível também. E compreensiva.


 - Por que será que "de repente" eu mudei, hem?


 - Não faço a mínima ideia. E você sabe muito bem que eu odeio sarcasmo.


 - Bichinho... te ofendi, foi?


 - Pra mim basta! Você não é mais aquela mulher que eu amava. - e foi se afastando.


 - Então te dana, inferno! Pois é uma pena, viu! Também não te amo mais, e talvez nunca tenha... - ele já estava longe demais pra ouvir.


     Dois dias depois, Roberta ligou; desculpou-se e eles voltaram numa boa.

domingo, 19 de junho de 2011

que em pasto azul boi que late comesse,
ou que gato preto fosse agouro que se acolhesse;
que um rato brabo pelo meio da sala corresse
que homem chorasse, árvore andasse, poste mijasse e luz nunca acendesse.
que vazio nosso um dia se preenchesse.


que bicho-da-seda papel higiênico comesse
falasse bandido que tudo não passava de um blefe;
fizesse menino com que pai e mãe obedecesse
fugisse do peito bezerro que recém-nascesse.
amor fosse possível sem que houvesse interesse.


tudo enfim diverso contrário sucedesse.
e fosse eu feliz e viver eu merecesse.