quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Como sempre, acordara de mau humor. Esfregou o rosto grosseiramente com água , punindo-se. O motivo? Não havia. Estava irritado, simplesmente, e a culpa só podia ser dele mesmo.

Olhou para o quintal. Bosta de cachorro. "Cachorro filho-da-mãe, só faz cagar, esse porra!". Ficou em dúvida se comia logo ou se logo limparia a merda. "Droga, agora já estou pensando 'nela' mesmo!". Resolveu limpar e depois tomar banho, para só então comer.

Saiu, com jornal velho e uma sacola de plástico. Começou o apanhamento de quatro bolotas de doberman, bem caprichadas. O vizinho da frente varria a calçada e parte da rua.

"Bom dia, vizinho!" - Falou alegre o varredor.
"Bom dia", odiou ter que responder.
"Último dia do ano, hem, tá animado?". Começou a se irritar.
"Não".
"Mas ora! Como pode? Ha ha! Não importa, o que importa é que Deus lhe dará tudo de bom, viu, e muito mais".
"É?". O desprezo se misturava com a descrença flamulada.
"Ora, não acredita? Pois Deus acredita no senhor. E eu rezo pelo senhor todas as noite, sabia?"
"Obrigado." Terminou de limpar o terceiro plogote. O jornal rasgara e tinha melado o dedo. "Karalho!".


O homem com a vassoura na mão assustou-se com tanta infelicidade, e compadeceu-se, tentou ajudar.

"O senhor anda muito irritado. Parece não estar em paz. Sabe, hoje, às dez horas, antes de romper ano, vai ter um culto, onde vamos agradecer pelo ano que passou e orar por um ano novo melhor ainda. Pode ser interessante, vai ter música, lanches, conversas... E então?".
"Meu amigo, não quero não, viu! Fique na sua paz aí! Até logo!". Entrou, com o cocô enrolado em quatro bolinhas de jornal dentro da sacola.


Lavou as mãos com sabão amarelo e esfregou bastante. Ficou pensando na inconveniência "desses evangélicos. Assim eles só fazem afastar. A igreja parece um lugar pra fanáticos que querem ver tudo aos olhos da Bíblia, mas em casa não estão nem aí pros filhos, traem as esposas, pensam demasiadamente em si, em dinheiro, etc".

Quanto rancor.

O dia transcorreu como se não fosse o último daquele ano. Para ele. Na rua, as pessoas se cumprimentavam, visitavam-se, riam, faziam almoços e pratos especiais e saiam trocando uns com os outros. Havia festas, música, brincadeiras, uma bandinha improvisada formada pela vizinhança mesmo. O carrancudo em casa, odiando tudo e todos.

Fez seu próprio almoço, displicentemente. Ficou uma droga. Mal comeu .Leu O Manual do Executivo, escutou Jazz, entrou na internet.

Pesquisava detalhes da Segunda Guerra, num site especializado. Até se encher. Teve vontade de entrar nun chat. Relutou. Ficou olhando vídeos diversos. Teve vontade de novo. Cedeu.

Conversou com algumas pessoas. "Ninguém interessante". Saiu. "Filme", resolveu. Assistiu Mar adentro. Ótimo. Emocionou-se. Sentiu-se só. Já eram seis da tarde. Dormiu. Acordou. O rádio-relógio marcava 21:14h. Ficou com vontade de chorar. Chorou. "Por quê?". Ele sabia.

Tomou banho e foi à igreja. Lá encontrou seu vizinho, que quando o viu, sorriu, dirigindo-se para ele. Abraço apertado. Ele chorou de novo. O vizinho o pegou pela mão e o sentou ao lado de sua esposa, que estava com as crianças. Tocou uma música. "Posso até chorar/Mas a alegria vem de manhã...". Mais choro, e soluços. A esposa do vizinho o abraçou, e as crianças, pequenas, levantaram-se e fizeram o mesmo, arrudiando-o.

Nesse dia, ele se converteu.

Um comentário:

laisly brito disse...

Adorei as postagens. Você escreve muito bem!!!