Senhor Camilo,
Sinto muito existirem pessoas semelhantes ao senhor. Envergonho-me até de ser homem, porque vejo homens cometerem as mais vis baixezas.
Espero que repense seus atos.
Sem mais.
Atordoado. Foi assim que Camilo terminou de ler. Mas logo saiu do transe e a astúcia costumeira fez-se notar, apresentando ordenadamente ao seu consciente todos os possíveis rastros deixados de que sua memória dispunha, e seus respectivos modos mais efetivos de extermínio.
Eram pouquíssimos. "Como alguém poderia..." De repente lembrou-se do Osvaldo, "aquele filho da mãe hipócrita!" Flagraram-se no escritório após o expediente, uma semana atrás. "Bem que ele ficou bastante estranho. Cretino, que comer tudo sozinho."
Armou plano.
Dia seguinte passou na mesa dele e convidou-o para almoçar. "Insisto" - disse incisivamente, após menção de relutância do outro, que às vésperas do meio-dia já tinha seus próprios planos.
Camilo tomou cuidado para não serem vistos juntos, esperando do lado de fora da empresa, afastado da porta. Quando o colega de trabalho chegou, encaminharam-se para o centro, onde havia variedade de restaurantes.
- Então, qual é a ocasião? - perguntou Osvaldo.
- Ora, "amigos" não podem passar um tempo juntos? - os lábios crispados, dos olhos uma faísca maligna.
Caminharam uns dez minutos por ruas não muito movimentadas, contíguas à avenida, pois Camilo supostamente precisava pegar o relógio no conserto. Em certa altura, a cerca de trinta metros de uma Kombi branca com vidros fumê, estacionada à frente deles, do lado em que iam, Camilo iniciou conversa:
- Contou pra mais alguém?
- Ham?
- Não seja sonso, me diga!
- Olha aqui, você me chama...
Estavam ao lado da Kombi, e repentinamente a porta lateral desta se abriu e quatro braços musculosos puxaram Osvaldo para dentro. A tarde andava silenciosa por ali, continuando do mesmo jeito depois que o veículo da Volkswagen dobrou a esquina.
Camilo teve um almoço recompensador. Osvaldo nunca mias almoçará.
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