quarta-feira, 13 de julho de 2011

Uma briga das brabas

Disputaram um mano-a-mano a Inocência e a Concupiscência. A primeira, em sua ignorância do mal, não adivinhava os estragemas da segunda, o que lhe rendeu severas bordoadas. Esta última sentia prazer em cada penetração dos ossos de seu punho na carne tenra da ingênua adversária, que a princípio evitou a briga, não encontrando motivos para tal, mas que, aos se ver agredida, reagiu, como a incitava seus puros instintos. Venceu, posto que a Concupscência passou a voluptuosamente desfrutar das pancadas que recebia, e se batia de volta, tinha como fim estimular a outra a castigar-lhe mais. 

Passaram então a discutir, a Inocência a cobrar explicações daquele absurdo à Concupiscência, que justificava-se dizendo estar farta de ser considerada pelos homens como um "escorrego", um deslize de sua moralidade, enquanto que a outra era louvada e às vezes perseguida, sendo considerada muitas vezes condição para a Felicidade. Disse que os homens sempre voltavam a ela, pois ela era inerente à sua condição, enquanto que a outra se vai com o amadurecimento, uma demodé, obsoleta, e estúpida! 

A Inocência viu-lhe o desgosto infeliz e apiedou-se, disse que era verdade, que não passava de um atributo de crianças, e que muitas vezes levava volta dos espertos, como ela, a Concupscência, que embora fugazes, proporcionava muito mais prazeres aos homens.

Nesse interím, a Concupiscência aproveitou uma abaixada de cabeça da Inocência e deu-lhe um golpe derradeiro, abandonando-a ao relento, no chão.

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