terça-feira, 5 de abril de 2011

Preferia conservá-la assim, estagnada no tempo, sem atualizações, com as lembranças que lhe davam prazer limitando a existência dela. E ignorava, propositadamente, o que não podia evitar saber: que ela estava com outro, que fazia deste o que ele mesmo já fora um dia.

Dessa forma, anacrônico, tinha ainda amor, tinha ciúmes, saudades, algo.

E se recorria à memória e ao seu conteúdo, era porque obedecia a um instinto de conservação, era porque não sentia mais nada, dormente, e pra viver é preciso sentir.

Alimentava-se de passado, enquanto tentava febrilmente se adaptar ao presente, captá-lo, encontrar gosto nele.

Vez por outra se estranhava, porque entendia-se ainda aquele felizardo a quem ela amava, quando há muito isto tinha deixado de ser. Via em seus olhos no espelho um certo brilho selvagem, ferido; uma expressão séria, profunda, de quem sofre continuadamente. "O que houve?".

Percebia friamente que estava partido, e esta percepção estéril não o levava a nada. E seguia.

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